No sábado, 11 de maio, a Revista Philos promoverá um webinar gratuito acerca do conto “Continuidade dos parques”, de Julio Cortázar, como parte do curso online “Latinoamérica Viva — do México ao Cono Sul”. O encontro acontecerá às 11h00 do horário de Brasília e terá a mediação da professora, tradutora e colaboradora da Philos, Lucía Tamaroff. O meeting será feito pelo aplicativo Google Meet e o ID (identificador do encontro) será disponibilizado aqui no site da Revista Philos 30 minutos antes do encontro.
Revista Philos: Continuidade dos parques
Horário: 11 de maio às 11h
Entrar na sala do Google Meet: https://meet.google.com/jcj-jmqr-fry
Latinoamérica Viva — do México ao Cono Sul
Um passeio pela literatura de língua espanhola dos clássicos ao contemporâneo.
Depois de duas edições de sucesso, a Revista Philos retoma a sua programação de cursos e oficinas online com a estreia da terceira temporada do Philos talks. Numa nova sequência de webinars da Philos apresentamos “Latinoamérica Viva — do México ao Cono Sul”, uma digressão pela literatura de língua espanhola dos clássicos ao contemporâneo.

A América Latina tem servido de pano de fundo para muitas histórias — entre colonizações, genocídios indígenas, diásporas negras, golpes, ditaduras e questões contemporâneas. Numa nova sequência de webinars literários da Philos, apresentamos “Latinoamérica Viva — do México ao Cono Sul”, um passeio pela literatura de língua espanhola que se faz na Argentina, Colômbia, Guatemala, Uruguai, Chile e México.
Uma série de oito encontros online que nos levarão a descobrir outras Américas possíveis e imagináveis a partir da Argentina de Julio Cortázar e Liliana Heker; da Colômbia de Gabriel García Márquez e Margarita García Robayo; da Guatemala de Augusto Monterroso; do Uruguai de Mario Benedetti; do México de Guadalupe Nettel e do Chile de Alejandro Zambra.
Alguns dos nomes mais importantes da literatura da centro-américa e do sul dos trópicos reunidos por Lucía Tamaroff para uma verdadeira viagem do México ao Cono Sul. Um universo imaginário e fantástico — fusão entre o mágico e a realidade, onde são mostrados elementos irreais como algo natural e comum. Um passeio para além da fantasia: perpassando pela influência política e econômica dos Estados Unidos nos “países bananeiros”, as crises e golpes nas Américas Central e do Sul e a relevância da literatura para narrar estes e outros tempos, chegando até os dias atuais para refletir questões contemporâneas como o racismo, os relacionamentos modernos e os feminismos plurais.
Venha fazer parte dessa viagem pela América mágica e política da nossa literatura! Inscreva-se agora mesmo. Sem mais delongas, leia o conto do primeiro encontro:
CONTINUIDADE DOS PARQUES
de Julio Cortázar
Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer. Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
—Do livro Final do Jogo, de Julio Cortázar com tradução ao português de Remy Gorga Filho.
CONTINUIDAD DE LOS PARQUES
de Julio Cortázar
Había empezado a leer la novela unos días antes. La abandonó por negocios urgentes, volvió a abrirla cuando regresaba en tren a la finca; se dejaba interesar lentamente por la trama, por el dibujo de los personajes. Esa tarde, después de escribir una carta a su apoderado y discutir con el mayordomo una cuestión de aparcerías, volvió al libro en la tranquilidad del estudio que miraba hacia el parque de los robles. Arrellanado en su sillón favorito, de espaldas a la puerta que lo hubiera molestado como una irritante posibilidad de intrusiones, dejó que su mano izquierda acariciara una y otra vez el terciopelo verde y se puso a leer los últimos capítulos. Su memoria retenía sin esfuerzo los nombres y las imágenes de los protagonistas; la ilusión novelesca lo ganó casi en seguida. Gozaba del placer casi perverso de irse desgajando línea a línea de lo que lo rodeaba, y sentir a la vez que su cabeza descansaba cómodamente en el terciopelo del alto respaldo, que los cigarrillos seguían al alcance de la mano, que más allá de los ventanales danzaba el aire del atardecer bajo los robles. Palabra a palabra, absorbido por la sórdida disyuntiva de los héroes, dejándose ir hacia las imágenes que se concertaban y adquirían color y movimiento, fue testigo del último encuentro en la cabaña del monte. Primero entraba la mujer, recelosa; ahora llegaba el amante, lastimada la cara por el chicotazo de una rama. Admirablemente restañaba ella la sangre con sus besos, pero él rechazaba las caricias, no había venido para repetir las ceremonias de una pasión secreta, protegida por un mundo de hojas secas y senderos furtivos. El puñal se entibiaba contra su pecho, y debajo latía la libertad agazapada. Un diálogo anhelante corría por las páginas como un arroyo de serpientes, y se sentía que todo estaba decidido desde siempre. Hasta esas caricias que enredaban el cuerpo del amante como queriendo retenerlo y disuadirlo, dibujaban abominablemente la figura de otro cuerpo que era necesario destruir. Nada había sido olvidado: coartadas, azares, posibles errores. A partir de esa hora cada instante tenía su empleo minuciosamente atribuido. El doble repaso despiadado se interrumpía apenas para que una mano acariciara una mejilla. Empezaba a anochecer. Sin mirarse ya, atados rígidamente a la tarea que los esperaba, se separaron en la puerta de la cabaña. Ella debía seguir por la senda que iba al norte. Desde la senda opuesta él se volvió un instante para verla correr con el pelo suelto. Corrió a su vez, parapetándose en los árboles y los setos, hasta distinguir en la bruma malva del crepúsculo la alameda que llevaba a la casa. Los perros no debían ladrar, y no ladraron. El mayordomo no estaría a esa hora, y no estaba. Subió los tres peldaños del porche y entró. Desde la sangre galopando en sus oídos le llegaban las palabras de la mujer: primero una sala azul, después una galería, una escalera alfombrada. En lo alto, dos puertas. Nadie en la primera habitación, nadie en la segunda. La puerta del salón, y entonces el puñal en la mano, la luz de los ventanales, el alto respaldo de un sillón de terciopelo verde, la cabeza del hombre en el sillón leyendo una novela.
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